terça-feira, 17 de agosto de 2010

Nina Hagen agora é gospel: o que muda na sua música?

Seus avós paternos eram judeus e morreram num campo de concentração. Seus pais eram ateus. Ela nasceu em Berlim Oriental e, no final dos anos 1970, se tornou um ícone do punk e da new wave. Em 2009, aos 55 anos, Nina Hagen foi batizada em igreja protestante. Seu disco mais recente, Personal Jesus, foi lançado em julho e é totalmente devotado a Deus e a Jesus Cristo. God's Radar, Just a Little Talk with Jesus e Take Jesus with You são alguns dos títulos das canções da Nina Hagen gospel.

Você há de pensar: a religião domou a cantora iconoclasta que mantinha cabelos coloridos, simulava masturbar-se no palco, radicou-se nos Estados Unidos no auge da new wave e fez sucesso mundial em 1983 com New York New York, uma anárquica e exótica mistura de pop, punk e ópera. Mas as coisas não são bem assim.

Pela capa do CD, percebe-se que Nina continua obedecendo ao visual rebelde e provocador de sempre. No passado, ela batizou sua filha como Cosma Shiva; discorreu sobre Deus, OVNIs e política em seus shows de rock; reinterpretou mantras tipo Hare Krishna (no disco Om Namah Shivay, de 1999); tornou-se uma ativista contra a guerra no Iraque. Hoje, mentém-se devota como sempre, mas eleva Deus e o cristianismo ao primeiro plano.

Sua trajetória é curiosamente semelhante à da brasileira Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo), que viveu em comunidade hippie com os Novos Baianos, tingiu os cabelos de todas as cores imagináveis, teve filhos com nomes como Nana Shara e Krishna Baby, converteu-se ao "rá" do guru Thomas Green Morton e atualmente é "popstora" evangélica, como ela própria se intitula. De modo análogo de Baby, Nina Hagen é proprietária de musicalidade ímpar, incandescente, se você se permitir não nutrir preconceito contra suas religiões, sua instabilidade e sua predisposição a crer e a devotar - em deuses, em religiões, em forças naturais e/ou sobrenaturais, na música. Sim, a música é um de seus deuses condutores - como é da maioria dos músicos e dos amantes de música.

Se Personal Jesus é insistente no tema, não o é na constituição musical. Conforme as faixas avançam, alterna-se entre rock, pop, gospel, reggae e blues de raízes profundas. A canção-título é uma releitura do electropop Personal Jesus, do Depeche Mode. Help Me, pra lá de devotada, é uma lindíssima e plangente balada, cantada por Nina em vozeirão na melhor tradição rouca da deusa de sexo-drogas-&-rock'n'roll Marianne Faithfull.



Empapuçados

Em suma, não é genial nem revolucionário, mas é um disco plenamente audível, um trabalho de respeito.

Não são poucos os artistas que produzem música empapuçados de crença e fé. Pense em Tim Maia ordenando "leia o livro Universo em Desencanto", falando de seres "da goma e da resina" e pregando a Energia Racional. Pense em Jesus Cristo, gospel fervoroso de Roberto Carlos. Pense na Tábua de Esmeralda de Jorge Ben ou na Sociedade Alternativa de Raul Seixas. Pense na voz poderosa de Aretha Franklin, ou em nove entre dez gênios da soul music. Pense no candomblé de Clara Nunes, Maria Bethânia, Dorival Caymmi ou Clementina de Jesus.

Nina Hagen não é a mais sutil ou elaborada desses artistas todos. Mas seu Personal Jesus traz, lá pelas tantas (exatamente na penúltima faixa, número 12), uma mensagem de impacto. All You Fascist Bound to Lose, chama-se o gospel. Todos vocês, fascistas, estão destinados a perder. Sua bênção, dona Nina Hagen.


Fonte: Opera Mundi
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